Quanto visitamos uma cidade, geralmente a última coisa que damos atenção é ao chão (a não ser que seja muito sujo ou cheio de lixo que fique impossível de não prestar atenção) – via de regra nos concentramos em seus monumentos, na sua arquitetura, nos seus atrativos naturais, nas pessoas e etc. E em tempos atuais passamos ainda muito tempo de olho no celular dispersando mais ainda nossa atenção de outros detalhes 🙂 Mas em Berlim, vale a pena ficar atento ao chão e suas calçadas, pois eles escondem algumas surpresas!!
Berlim é uma cidade que respira história – tanta coisa aconteceu aqui! Foram acontecimentos que marcaram e moldaram o mundo ocidental como ele é hoje. E a cidade “abre seus arquivos”, mostra esta história – por mais dolorosa e vergonhosa que ela seja. Eu sempre digo que a cidade é um livro de história a céu aberto. E em vários casos esta história é “escrita” no chão.
Portanto, para quem visita Berlim e quer conhecer mais da sua história, dispense um olhar mais atento para as calçadas da cidade, pois elas nos revelam muito da cidade e do seu passado.
Abaixo, você encontra uma lista dos segredos guardados nas calçadas e asfalto de Berlim!
– Marca do Muro de Berlim
O muro de Berlim separou uma cidade, um país, foi o símbolo máximo da Guerra Fria. Mas antes de mais nada, o muro de Berlim encarcerou os cidadãos orientais. Assim, quando ele cai em 1989, é claro que as pessoas querem se livrar dele, removendo-o fisicamente. E foi o que aconteceu com a grande parte dele, ficando somente alguns trechos e pedaços remanescentes em alguns pontos da cidade.
Mas como os alemães prezam muito pela história, houve uma iniciativa para que se marcasse o percurso que o muro fazia enquanto ele estava de pé – de forma que as pessoas e as novas gerações não o esquecessem e tudo que ele representou.
Desta maneira, em diversos pontos de Berlim, pode-se ver no chão uma linha de paralelepípedos e em alguns pontos em parte desta linha tem uma placa de ferro com a inscrição “Berliner Mauer 1961-1989” (Muro de Berlim 1961-1989). Esta trilha de paralelepípedos transcorre exatamente por onde o muro passava – isto por onde é possível, pois a cidade foi reconstruída e em vários pontos que na época eram tomados pelo esquema do muro de Berlim, hoje são ocupados por novas construções. Em alguns lugares, seguimos a linha do muro daí nos deparamos com uma fileira de prédios e depois dos prédios a trilha continua.
Você pode ver esta trilha, por exemplo, no asfalto entre o Portão de Brandemburgo e o parque Tiergarten, que para um lado segue pela calçada atrás do parlamento e para o outro lado, segue na beira do Tiergarten em direção à Potsdamer Platz. Próximo do Checkpoint Charlie, outro ponto turístico de grande movimento, também segue a trilha do muro de Berlim.
– “Tear down this wall!” (“Derrube este muro!“)
“Derrube este muro!“ – este é um trecho de um discurso que entrou para a história de Berlim e do mundo. Era junho de 1987 e o mundo continuava dividido politicamente em “dois mundos” e por uma Guerra Fria, liderada por duas potências – os Estados Unidos e a União Soviética. O símbolo maior desta guerra e da divisão política do mundo se encontrava em Berlim: o Muro de Berlim.
O presidente dos Estados Unidos visita Berlim por causa das comemorações dos 750 anos da cidade e em uma parte do seu discurso, Ronald Reagan diz “Sr. Gorbachev, abra este portão. Sr. Gorbachev, derrube este muro!”. Na época isto parecia uma utopia, simplesmente assim “derrubar este muro”. Na verdade quase uma provocação em tempos tão sensíveis. Mas o que naquele momento parecia impossível, acabou acontecendo pouco mais de 2 anos depois.
E este discurso aconteceu em um palco montado na beira do Muro de Berlim, com o Portão de Brandemburo atrás. Este ponto é hoje o cruzamento da Rua 17 de Junho com a Ebertstraße.
E para lembrar o acontecimento, incrustada na calçada deste cruzamento, há uma placa de metal. Na placa, em relevo, a silueta do rosto de Ronald Reagan e ao lado a famosa frase do discurso nos idiomas inglês e alemao. E logo abaixo, um pouco mais de informação sobre o ocorrido.
– Memorial para queima de livros
Berlim tem inúmeros memoriais para lembrar as vítimas e acontecimentos das ditaduras pelas quais o país passou em sua história mais recente. Um destes memoriais é para lembrar a queima de livros ocorrida em 13 de maio de 1933, quando nazistas queimam milhares de livros de autores cujas idéias são opostas as do regime nazista.
Mas o significativo memorial passa despercebido por muitos. Outros que até sabem dele, ás vezes não conseguem “achá-lo”. É que quem chega na Bebelplatz, é primeiramente distraído pelo belo conjunto arquitetônico que ali se encontra. Depois, o que se vê é um espaçoso largo, com alguns poucos e discretos bancos em uma das suas laterais, dando-se a impressão de que nada mais ali se encontra.
Mas à medida que nos dirigimos para o centro do largo e olhando para o chão, descobrimos uma placa de vidro quadrada incrustada no calçamento. Se olharmos através deste vidro vemos uma profunda sala subterrânea, toda branca e circundada por prateleiras vazias – prateleiras que caberiam milhares de livros, livros que foram destruídos, queimados. Este é o genial memorial para lembrar a queima dos livros e que se não olharmos atentamente para o chão de Berlim pode passar despercebido.
– Pedras do Tropeço
Não, não se trata de pedras em seu sentido verdadeiro, pedras naturais que podemos tropeçar pelo caminho – no máximo “tropeçamos” nestas “pedras” com nossos sentimentos e emoções. Aqui trata-se de mais um memorial para lembrar as vítimas do nazistas.
As chamadas Pedras do Tropeço são pequenas placas de metal para lembrar o destino das pessoas que foram mortas, perseguidas, deportadas, expulsas ou levadas ao suicídio durante a ditadura nazista. De forma sucinta, a plaquinha informa alguns dados pessoais da vítima e o que aconteceu com ela.
Este memorial é um projeto do artista Gunter Demnig iniciado em 1992 e que continua em desenvolvimento, pois novas placas são frequentemente instaladas. As Pedras do Tropeço podem ser encontradas nao somente em Berlim, como por toda a Alemanha e 25 outros países da Europa, contando atualmente com cerca de 75 mil paquinhas instaladas.
E as Pedras do Tropeço são incrustadas na calçada, via de regra em frente ao endereço onde a pessoa morou por último. Mas as Pedras do Tropeço também podem ser instaladas onde a vítima trabalhou ou onde estudou. A idéia das plaquinhas serem incrustadas na calçada é que para ler o texto contido nelas, as pessoas acabam se curvando, fazendo assim uma reverência simbólica para estas vítimas.
Dentre outras ruas de Berlim, você pode encontrar muitas Pedras do Tropeço nas imediações do Hackescher Markt, assim como em frente ao Hackesche Höfe. Em frente a Universidade Humboldt encontra-se um fileira de 18 a 20 Pedras do Tropeco que lembram pessoas que ali estudaram e que foram vítimas dos nazistas. Clique aqui para saber mais sobre as Pedras do Tropeço.
– Tampas de bueiros
O último item da minha lista das surpresas guardadas nas calçadas de Berlim não tem conteúdo histórico, mas artístico. E acreditem – trata-se das tampas dos bueiros!!
Em ferro fundido, as tampas dos bueiro de Berlim são ornamentadas com alguns dos principais marcos e pontos turísticos da cidade. O círculo central da tampa mostra em relevo o Portão de Brandemburgo, a Torre de TV, o Reichstag, a Igreja da Memória, o Estádio Olímpico, o Prédio da Chancelaria e a Coluna da Vitória.
E estas tampas até servem de molde para alguns artistas. No verão, geralmente encontra-se um rapaz no Hackescher Markt que decalca a tampa do bueiro em um papel e os vende. A imagem pode ser emoldurado formando um quadro, que eu acho uma lembrança, um souvenir para lembrar de Berlim super original. Por alguns anos, tinha um outro jovem que decalcava as tampas do bueiro em camisetas – ficando super legais também.
Estas tampas de bueiro podem ser encontradas, por exemplo na calçada da Universidade Humboldt, na calçada entre Ponte do Palácio e a Catedral de Berlim ou ainda no calçamento ao lado do Altes Museum.
















